Tópico 3 Histórias locais de sucesso de mulheres NPT:  apresentação, discussão

O caminho de cinco euros:

Dar um sentido à sua vida e construir o impossível

Identidade: Sharine F. Hernández, Venezuelana

País de acolhimento desde 2017: Portugal

Lema de vida: Não é possível derrotar aqueles que jamais se renderão

Esta história foi desenvolvida no âmbito do projeto “Women TCNs Integration in Local Communities through Employability and Entrepreneurship Local Oriented Strategies.”

Através do ecrã emerge a presença de uma mulher vibrante, forte, idealista, mas também pragmática, ansiosa por se expressar e determinada a fazer do Mundo um lugar mais aprazível.

Sharine Fernández Hernández conta-nos a história das suas origens:  nasceu na Venezuela, no seio de uma família bicultural. O pai era colombiano, o que lhe conferiu uma dupla cidadania. É licenciada em Direito e Relações Internacionais e começou a exercer advocacia há vinte anos. Durante o período em que viveu no seu país de origem, foi Consultora Jurídica e Advogada de Negócios Internacionais. Abraçou diferentes profissões e desafios. Foi professora do Ensino Superior em Direito e em Comunicação Social e criou a sua própria empresa na área das importações.

Desde cedo, na sua carreira, Sharine enfrentou o problema da repressão política e compreendeu que há um preço a pagar quando não se é conformista e se tem opiniões fortes. A Venezuela enfrenta, atualmente, uma situação política e económica complexa e, à semelhança de outros compatriotas, a opção pela diáspora foi inevitável.

Sharine vive em Portugal há cinco anos e encontra-se numa situação regular, em termos do seu reconhecimento enquanto migrante.  Criou o próprio negócio de desenvolvimento de soluções tecnológicas jurídicas para a elaboração automatizada de contratos através de modelos preditivos.

Mas, viajemos de volta ao início da sua jornada.

Ao chegar a um país diferente para escapar à turbulência socioeconómica e política do seu país de origem, as pessoas podem enfrentar problemas esmagadores: falta de dinheiro e de documentação, choque cultural, falta de reconhecimento do diploma, incapacidade de falar a língua de acolhimento, entre outras barreiras. Este foi o caso de Sharine.  Embora compreendesse que o melhor a fazer era deixar para trás o seu país, passou por um período difícil, na chegada a Portugal.  Faltava-lhe dinheiro, não conseguia falar e escrever português corretamente e o diploma em Direito e Relações Internacionais, bem como as competências profissionais que tinha adquirido tornavam-se, aparentemente, inúteis.

Quando se é forçado a fugir, a nossa condição económica é vulnerável. Não é de esperar que se possa arcar com os custos elevados do processo de reconhecimento de um diploma.  Sharine acredita que os países de acolhimento devem  oferecer aos migrantes condições que lhes permitam trabalhar nos seus domínios de especialização. Sugere a relevância da criação de espaços de co-working que possam ser livremente utilizados. Sugere ainda a importância de criar um fundo para ajudar os migrantes a pagar o processo de reconhecimento do diploma.

Quando se é forçado a fugir, começamos do zero a nossa jornada em direção à autoexpressão através da linguagem.  Sharine relata a experiência devastadora de perder o domínio da linguagem verbal. A língua materna é, para qualquer um de nós, identidade, autoconfiança, conhecimento e sensibilidade.  Sharine recorda como foi frustrante não ser capaz de escrever nem de falar corretamente.  De repente, sentimo-nos analfabetos. Perdemos a identidade quando nos faltam competências linguísticas que permitam comunicar a nossa visão do Mundo.

Quando se é forçado a fugir em busca de liberdade, de paz e de prosperidade, provavelmente sofreremos face aos preconceitos dos outros. Infelizmente, os estereótipos culturais negativos são inevitáveis.  Sharine sentiu preconceito, não por ser mulher, mas por ser migrante. O mercado de trabalho não oferece igualdade de oportunidades aos nacionais e aos nacionais de países terceiros. Uma pessoa migrante tende a ser considerada uma ameaça e espera-se que aceite empregos de curto prazo, pouco qualificados e mal remunerados, que a população local não quer fazer.  Quando somos migrantes, vamos precisar de muito mais energia para nos permitirmos sonhar.

Como esperado, a integração de Sharine no mercado de trabalho português foi uma jornada longa e resiliente. Para além dos obstáculos acima descritos, a burocracia era uma enorme barreira a ultrapassar.  As relações bilaterais entre a Venezuela e Portugal também dificultaram a realização de procedimentos de reconhecimento relativos ao seu grau académico. Neste momento,  ainda está à espera de um documento para iniciar o seu processo de reconhecimento de diploma.

Contudo, rapidamente compreendeu que era vital encontrar o seu próprio espaço no mercado e desenvolver competências transversais para a realização das ideias de negócio. E assim foi:

Figura 1 – Apresentação em ANJE PORTO – novembro de 2017. Evento final com o Shark Tank Portugal, mostrando a empresa “Tradeasy.io – para encontrar novos mercados e parceiros usando I.A.-” (MPV).

Sharine ultrapassou obstáculos relacionados com o mercado de trabalho, fazendo pesquisas exaustivas na internet, a sua grande aliada. Dedicou horas a estudar publicações gratuitas de universidades e a frequentar MOOCs, seminários e oficinas.

Três meses após a sua chegada a Portugal, participou no programa Compete, Portugal 2020, na ANJE (Associação Portuguesa de Jovens Empreendedores). Em 2017, ganhou uma bolsa de estudo para participar num Programa Intensivo (230 horas) de formação sobre como criar uma empresa. Este foi o início da sua metamorfose profissional. Teve a oportunidade de conhecer o ecossistema empresarial português, participando numa rede inovadora. Na altura, a ANJE promoveu oportunidades para interagir com membros de Câmaras de Comércio Internacionais e discutir oportunidades de negócio. Houve também uma colaboração com a Universidade do Porto e com a Universidade do Minho que lhe permitiu frequentar uma formação inovadora.  Sharine tem uma visão muito positiva desta experiência, pois o curso proporcionou tudo o que necessitava: espaços físicos, alimentação, mentores atualizados, trabalho em rede, investidores  e uma plataforma digital .

Continuou proativamente a investir no seu desenvolvimento formativo, em busca oportunidades para aprofundar a sua visão empresarial. Participou em vários seminários presenciais sobre estratégias de marcas internacionais, formação de equipas e desenvolvimento empresarial, na Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, em Lisboa, e na AICEP (Agência Portuguesa para o Comércio e Investimento) o que lhe permitiu desenvolver trabalho em rede.

Em 2018, foi nomeada para o Desafio da Justiça Inovadora promovido pelos Países Baixos. A sua candidatura com CuriaLex.com ficou entre as melhores empresas internacionais de tecnologia jurídica.

O seu perfil dinâmico e inovador levou o CNAIM (Centro Nacional de Apoio à Integração de Migrantes) a convidá-la a dirigir um seminário no Gabinete de Apoio ao Empreendedor Migrante sobre Como Criar uma Empresa.

Quanto à aprendizagem da língua de acolhimento, Sharine teve de esperar 8 meses para frequentar cursos de Língua Portuguesa (Níveis A1 e A2) no IEFP de Alverca (Instituto de Emprego e Formação Profissional).  Quatro anos depois, o IEFP de Aveiro contactou-a para a informar de que havia uma vaga para frequentar os níveis B1 e B2.  Sharine acredita que as competências linguísticas do país de acolhimento são extremamente importantes para uma integração bem-sucedida, por isso, seria crucial acelerar e inovar os processos de aprendizagem.

Figura 2 – Carta da HiiL – Haia, Países Baixos. Junho de 2018. Inovando os Desafios da Justiça às soluções das PMEs. Evento de lista restrita para a pré-seleção de 100 melhores empresas do mundo em termos da tecnologia jurídica. “CuriaLex.com – para ajudar a desenhar contratos usando A.M. & I.A.- ” (MPV).

  • Sharine tem razão quando sublinha que, se um país está disposto a aceitar pessoas migrantes e refugiadas, é vital aumentar as possibilidades oferecidas pelo mercado de trabalho aos Nacionais de Países Terceiros.
  • Por outro lado, acredita que o crescimento pessoal, em termos de formação e de desenvolvimento de competências múltiplas, é também muito importante.
  • Para si, o investimento num perfil multilíngue é uma grande vantagem (português, inglês, espanhol, alemão).
  • Em segundo lugar, as competências de comunicação digital são igualmente uma mais-valia (criação de sites, marketing digital, copywriting, marketing de conteúdos, entre outros).
  • Finalmente, esta empreendera destaca a analítica negocial (big data, inteligência empresarial, machine learning), tecnologias imersivas, metaverso e realidade virtual. Estas são áreas que, do seu ponto de vista, irão gerar uma vasta gama de oportunidades de emprego.

Apesar de ter encontrado um labirinto de obstáculos, Sharine geriu com sucesso a sua carreira e é, neste momento, Diretora Executiva de duas empresas de tecnologia: Curialex.com e Tradeasy.io, ambas na fase de lançamento do MVP (Produto Mínimo Viável). A primeira está relacionada com o Comércio Internacional Digital e o outro diz respeito à Inteligência Artificial para o Comércio Internacional e Assuntos Jurídicos. Atualmente, está centrada neste último projeto de aplicação da inteligência artificial e inovação para o Direito e para a internacionalização. Tem competido em desafios nacionais e internacionais e é convidada a apresentar a sua solução jurídica em Haia.

Sharine desenvolve testes e feedback com potenciais utilizadores. Neste momento, a sua vida está concentrada no desenvolvimento de produtos digitais que possam atender às necessidades dos clientes.  A melhoria constante do produto é o seu foco. Tal requer trabalho e estudo diários, bem como um desenvolvimento permanente e disciplinado de novas competências digitais.

Quanto ao futuro, ela pretende desenvolver protocolos com universidades e centros de investigação para conceber cursos de Realidade Aumentada. Está a terminar um curso de Realidade Virtual e Aumentada na AICEP e descobriu que os modelos preditivos de aprendizado de máquinas são utilizados para a realidade aumentada.   Isto interliga o seu domínio de trabalho com a formação. Quanto ao Direito, ela pretende estabelecer parcerias com faculdades e firmas de advogados para testar as suas ferramentas.

Tenciona permanecer em Portugal e prosseguir com os seus estudos de pós-graduação em Criação e Desenvolvimento de Negócios no Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto. Devido ao conteúdo do curso, acredita que pode formalizar os seus conhecimentos em negócios digitais e formar outros sonhadores que queiram requalificar a si próprios.

Um desejo do fundo do seu coração: voltar à Universidade para ensinar.

Sharine diz que todos concordarão que viver no exterior força-nos a desenvolver um sentido claro de si mesmo.  A migração é uma mudança de identidade, implica um compromisso profundo e de mente aberta com uma nova cultura. Deve cultivar a capacidade de lutar honrosamente. Está a competir contra toda a gente, as oportunidades são escassas e tem de criar o seu próprio espaço. Ela acredita que o desafio de um migrante é empenhar-se na conquista do seu próprio espaço, construindo-o com respeito, honestidade e cuidado.

Sem dúvida que o nome Sharine representa uma mulher forte e bem-sucedida que acredita genuinamente que o Direito é muito mais do que uma forma de ganhar a vida. Ela considera o Direito um modo de vida: tem desejo de ajudar, de resolver problemas e de dar orientação e conselhos àqueles que destes necessitam.

Como portugueses, temos sorte em tê-la no nosso país.